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mário rodrigues

Lembra-se em miúdo, da excitação de chegar a casa dos seus avós maternos, em Lisboa, depois de uma viagem de várias horas, vindo do norte. Tudo era avassalador, o cheiro da casa, a recepção dos seus avós, particularmente da sua avó com os beijinhos repetidos e carinhosos na face ou na testa, ou ambos, o aroma de tudo o que os netos gostavam, já preparado para a primeira refeição. Dava voltas a toda a casa, revisitando todas as divisões, absorvendo cheiros, revendo alguns instrumentos de pintura ou fotografia do seu avô, revisitando velhos brinquedos.
Sentia, e com razão, que aqueles momentos eram únicos, que não se voltariam a repetir, pelo menos da mesma forma. Cada vez, era única e diferente. Ainda hoje ao ler estas linhas, sente um arrepio, pena de não voltar, e sorte de ter tido a felicidade daqueles momentos.
Teve uma infância e adolescência, em que estes momentos eram cíclicos e de grande felicidade. Sempre teve o prazer de viver, e de apreciar o que a vida tem de magnânime, de sublime e arrebatador. Teve a sorte de ter tido sempre a mãe ao seu lado, e das irmãs, pois não trabalhava, para mal dela e benefício comum, enquanto o seu pai desenvolvia a sua actividade profissional.
Voltando à avó, recorda as noites ou e/ou fins de tarde de preparação, quer de refeições quer de doces. A cozinha era grande, numa casa antiga de Lisboa, com balcões em mármore, onde a avó de origem alentejana, Redondo, fazia a preparação dos pitéus, que ele tanto apreciava. Acima de tudo pensa no carinho que ela punha em tudo o que fazia na cozinha, e na forma como tudo ia para a mesa. O rigor da mesa, atenta e disciplinarmente vigiado pelo avô, era o complemento.
Estava de calções, por vezes em bicos de pé, quando os preparados se perdiam do seu horizonte na pedra mármore, com as mãos atrás das costas, observando aquele ritual, verdadeiramente apaixonante e que o cativava profundamente.
Perante este interesse, a avó, começou a pedir a sua colaboração, em coisas simples, como segurar um alguidar onde se batia uma massa para fazer um qualquer delicioso bolo, ou massa folhada, de que ainda hoje guarda o intenso aroma, que depois na mesa merecia rasgados elogios pelos comensais presentes, e que ele assumia automaticamente e com grande orgulho a abrangência da sua pessoa.
Foi o início do seu interesse pela cozinha, e pela função social importantíssima da mesa, em que aliás a sua avó paterna, transmontana, de Cabril, no Gerês, também teve um papel importante, embora de uma forma que considera diferente.
Nos últimos 15 anos tem vindo a desenvolver a actividade na área da gastronomia, criando projectos que têm sido marcantes pessoal e profissionalmente, sendo ao longo do tempo referências no mercado. Nos últimos anos tem também colaborado com a imprensa escrita e falada, em artigos específicos e produção de programas.
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